Será verdade? Câmara do Funchal pagou 181 mil € a perito por causa da árvore do Monte e 0 € às 62 vítimas da tragédia

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Dois anos depois da tragédia do Monte, os familiares dos 13 mortos e os 49 feridos pela queda do carvalho centenário no Largo da Fonte continuam à espera de Justiça. Ninguém viu ainda um euro de indemnização, mas parece haver quem tenha lucrado com o acidente: Chama-se Pedro Jorge Ginja, é um engenheiro agrícola de Vila Real, e, em três anos, já faturou à Câmara do Funchal 181.470,94 €.

Joana Camacho, a mulher que no final da manhã do dia 15 de agosto de 2017 estava a agradecer à santa do Monte a dádiva da vida do filho, Gustavo, então com 15 meses, mas que nasceu prematuro com apenas 6, nunca imaginou que estava a poucos segundos de perder o marido, Diogo, e o bebé que este trazia ao colo e era motivo da graça.

Diogo e Gustavo foram esmagados pelo tronco de um carvalho centenário que caiu no Largo da Fonte, matou 13 pessoas e feriu com gravidade 49, durante a maior festa religiosa da Madeira.

Joana ficou bastante ferida, perdeu o marido e o filho bebé e é uma das vítimas que continua à espera que descubram os culpados e se faça Justiça. Ou que lhe seja paga uma indemnização... que nunca irá reparar a sua dor.

Ao contrário de Joana Camacho, que vive revoltada com a desgraça que se abateu sobre a sua família, dizimando-a, parece haver quem já terá lucrado com a dor das vítimas e dos familiares de quem pereceu, ou de quem não esquece a imagem de terror a que assistiu no Largo da Fonte, na freguesia do Monte.

Dois anos depois da tragédia, sem que se tenha ainda apurado responsabilidades ou tenha sequer havido julgamento, a Câmara Municipal do Funchal adjudicou, sempre ao mesmo engenheiro do continente, estudos e perícias. O primeiro foi em 2017, o ano da tragédia, e resultou num relatório completíssimo, bastante exaustivo, sobre o carvalho com 200 anos que, abruptamente, se abateu sobre a multidão, esmagando-a.

Segundo apurou o Insular de Notícias, o autor, que no documento se apresenta como arboricultor e engenheiro agrícola, oriundo de Vila Real e empresário em nome individual, assinou um contrato, o 157/2017, compromisso legal em que a autarquia esteve representada pelo então vereador com o pelouro das finanças, Miguel Silva Gouveia, actual edil do Funchal, e cobrou, pelos estudos exaustivos, 40.857,67€ que, acrescidos de IVA a 22% (taxa máxima na Madeira), atiraram a factura final para perto da casa dos 50 mil euros.

NÃO HÁ DUAS SEM TRÊS E POR ISSO ASSINOU-SE MAIS CONTRATOS COM O ARBORICULTOR

Um ano depois, no Verão de 2018, é aberto concurso, novamente pela Câmara do Funchal, para “prestação de serviços de realização de estudos subsequentes especializados relativos à queda do carvalho ocorrida a 15 de Agosto no Largo da Fonte, freguesia do Monte”.

A esta consulta concorreram três empresas, que apresentaram custos, sem IVA, que oscilaram entre os 17.000 e os 40.798€ e apenas Pedro Jorge Ginja, o quarto proponente, apresentou um valor simpático de 9.940€, que, com IVA a 22%, saltou para 12 mil euros. A escolha voltou a recair sobre o já familiar arboricultor de Vila Real.

Dois anos depois, a poucos dias de mais um aniversário da tragédia do Monte, eis que Pedro Jorge Ginja volta a assinar novo contrato com a Câmara do Funchal, agora directamente com o presidente, Miguel Silva Gouveia, mas o valor do “Contrato Avulso 108/2019” disparou para os 97.949,00 € e, com IVA, a transferência final será catapultada para os 119.497,78€. O argumento para que o já familiar engenheiro agrícola regresse à Madeira é o da “aquisição de serviços de avaliação especializada de árvores”.

OS NOMES E AS HISTÓRIAS DE TODOS OS QUE PERDERAM A VIDA NAQUELA MANHÃ NO MONTE

Naquele final de manhã no Monte, Ana Maria Freitas também morreu quando colocava uma vela em homenagem ao marido, que tinha morrido um ano antes. Era o dia do aniversário de Ana. Celebrava 63 primaveras.

A poucos metros, Ilda Abreu, que trabalhava num café nas imediações do Santuário, também pereceu à força do mortífero carvalho. Mais sorte teve Rosa Fernandes, que se apercebeu do ruído e fugiu a tempo, mas perdeu o marido, Carlos Fernandes, de 52 anos, que ficou esmagado.

Como Carlos, também pereceram Silvano Silva, Alice, Daniel Gomes de Nóbrega, Maria do Céu Miranda Silva, Georgina Martins, Elda Santos e as turistas Céline Bétouret, uma francesa de 42 anos que era apaixonada pela Madeira e pela sua cultura, e ainda uma cidadã húngara de 31 anos.

O antigo presidente independente da Câmara do Funchal e actual candidato socialista às regionais de Setembro voltou, a 16 de Julho deste ano, a ser constituído arguido no processo da queda da árvore. Paulo Cafôfo deverá sentar-se no banco dos réus ao lado da vereadora Idalina Perestrelo, que ainda será ouvida em sede de instrução a 4 de Outubro próximo, e do funcionário responsável pelos jardins municipais, que será ouvido pela juíza Susana Mão-de-Ferro a 11 de Outubro. A haver julgamento, só ocorrerá depois da Eleições Regionais e das Legislativas.


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