Exclusivo Insular. Ronaldo esteve para ser jogador do Benfica em 2001. Por 300 euros, um apartamento e um emprego de cozinheira para Dolores Aveiro. Todos os contornos da fantástica história nunca revelada

Partilhar nas redes sociais
  • 132
  •  
  •  
  •  
    132
    Shares

Ronaldo podia ter sido jogador do Benfica com 16 anos, no Verão de 2001. Sim, o Insular de Notícias descobriu o então olheiro do SLB na Madeira, a quem uma familiar próxima de CR7 pediu ajuda para levar o jovem para as trincheiras da Luz. Saiba porque falhou o negócio e leia o relato sentido do homem que nutria amizade e respeito por Diniz Aveiro.

Crónica de Egídio Carreira

Agora que Dolores Aveiro admitiu que Cristiano Ronaldo foi do Benfica – muito honestamente acho que essa condição ainda se mantém: benfiquista um dia, benfiquista para sempre - a memória transporta-me para a história que vos vou contar, que guardo nitidamente em memória como se tivesse sido ontem… e na qual, apesar da minha total vontade pessoal não houve um final feliz, mas se tivesse havido, Ronaldo teria vestido de encarnado como era desejo do pai, Diniz Aveiro…

O Verão de 2001 estava prestes a chegar, e um dia recebi da parte de José Luís Vieira, meu colega de empresa, antigo motorista da RDP/Madeira, um verdadeiro sportinguista sofredor, a mensagem de que alguém queria falar comigo no sentido de “levar” Cristiano Ronaldo do Sporting para o Benfica. Naquele tempo eu colaborava com o Futebol Juvenil do Benfica, na qualidade de Observador de Jogadores na Região Autónoma da Madeira, e foi nessa função que fui contactado no sentido de intermediar essa transferência.

Nunca o tinha visto jogar, mas já tinha ouvido falar muito de Ronaldo, que ao tempo jogava no Sporting, e que curiosamente por aqueles dias estava ao serviço da seleção de Lisboa, que disputava um torneio entre Associações em Rio Maior. E sabia do valor e das “proezas futebolísticas” do “meu catraio” como me dizia repetidamente Diniz Aveiro, isto quando nos conhecemos, em meados dos anos 90, ele como “roupeiro” e eu enquanto jogador do Andorinha, o clube de Santo António, o primeiro clube de Ronaldo.

O primeiro contacto deu-se num bar chamado Las Vegas, perto do Casino, no Funchal. O sonho da transferência ganhou contornos no decorrer do café da manhã. Fui apresentado a uma familiar muito próxima que me propôs as condições para a transferência do jovem de 16 anos. Depois da conversa de circunstância, fui informado que o contrato com o Sporting estava a terminar, e ouvi as condições propostas: para além dos encargos decorrentes da transferência a pagar ao Sporting (os jogadores não eram totalmente livres naquele tempo, mesmo em final de contrato… ) o Benfica teria de assumir o pagamento do salário de Ronaldo, 300 euros ou como me foi dito sessenta contos por mês, mais o aluguer de um apartamento em Lisboa e um trabalho (com função profissional definida de cozinheira) para a pessoa que propôs a transferência e que iria viver com Ronaldo no continente.

Para aquilo que já se dizia sobre o valor futebolístico de Ronaldo, pareceu-me que eram condições aceitáveis, justificadas - havia ali um forte desejo em ver Ronaldo singrar no futebol e acompanhar de perto o seu crescimento – e que não me pareciam exageradas ao ponto do Benfica recusar o negócio. Acto contínuo liguei a um responsável do Departamento de Formação do SLB, a quem transmitia as informações recolhidas no âmbito da prospecção. Expliquei tudo, as condições, a proposta, o conhecimento que tinha da família, e fiquei verdadeiramente contente por saber da alegria que esta transferência iria proporcionar a Diniz Aveiro, um benfiquista assumido... Fiquei radiante à espera da resposta para fazer aquilo que tinha de ser feito.

O café era regularmente no Las Vegas, e era lá que me encontrava com a familiar próxima de Ronaldo que me propôs a transferência. Havia impaciência quanto ao desfecho do que estava em marcha. Dias depois, Ronaldo chegou ao Funchal. Conheci-o na porta do café e aquele corpo ainda “meio desengonçado”, sem o trabalho de ginásio que o transformou num “Super Atleta”, era a imagem genética de Diniz Aveiro. Mostrou-se reservado, obediente, de poucas palavras, comportamento típico de adolescente, ouvia o diálogo com interesse relativo, cabisbaixo, apesar de ser o seu futuro que estava em jogo. Despedimo-nos e eu fiquei convicto do seu potencial enquanto jogador sem nunca o ter visto jogar, o filho do Diniz não enganava, tinha mesmo de ser bom de bola … como o próprio me afiançou por diversas vezes.

Passados alguns dias fui confrontado com a necessidade de acelerar o processo. Ou a transferência avançava … ou a renovação que estava mais ou menos negociada com o Sporting teria de ser assinada. Liguei ao Benfica, e a resposta foi diplomática, demasiado respeitosa, porque havia uma espécie de acordo de cavalheiros que o Benfica não podia quebrar. Para haver esta transferência, teria de haver um jogador a fazer o percurso inverso, isto é, do Benfica para o Sporting. Enchi-me de entusiasmo e respondi logo que era trabalho para a Formação do Benfica. Alertaram-me para o facto de isso não ser assim tão fácil, o Sporting também teria de mostrar interesse num jogador do Benfica… e nunca iria prescindir de Ronaldo que já era um craque.

E assim o Departamento de Formação do Benfica, que conhecia bem Ronaldo, o seu valor, as suas capacidades que na altura já não ofereciam quaisquer dúvidas, todo o seu potencial que foi mais do que demonstrado, teve de deixar “escapar” aquele que era um diamante em bruto, ainda por lapidar é certo, mas já de brilho muito intenso. Eu estava de mãos atadas, e nada mais podia fazer do que aguardar uma qualquer evolução no interesse que acabou por nunca ser concretizado. De resto, pouco tempo depois, e para meu desespero, Ronaldo renovou contrato com o Sporting. E gorou-se aquela que foi uma possibilidade muito forte de contratar aquele que foi considerado várias vezes “Melhor Jogador do Mundo”, condição que disputa com Messi vai para mais de uma década.

O REENCONTRO DO OLHEIRO COM O CRAQUE NO FUNCHAL, SOB O OLHAR DE JORGE MENDES

Voltei a encontrar Ronaldo pela segunda vez na vida, em pleno salão nobre do Governo Regional da Madeira, na Avenida Zarco no Funchal, quando a meados da década passada, se preparava para receber a primeira distinção outorgada pelo executivo de Alberto João Jardim. Aproximamo-nos, trocamos cumprimento afectuoso, e Ronaldo perguntou-me de onde nos conhecíamos, revirando os olhos e tentando ao mesmo tempo perceber de onde se recordava de mim … lembrei-lhe da tentativa de transferência para o Benfica, palavras curtas, mas suficientes para ele sorrir abertamente … com Jorge Mendes atento e por perto … Ronaldo apertou-me a mão e dirigiu-se para a cerimónia propriamente dita. Não sei o que lhe passou pelo pensamento nem houve tempo para mais conversa. Nunca mais nos encontramos, mas um dia gostava de lhe perguntar.

A história que aqui conto nunca foi tornada publica, nem dei explicações por falta de oportunidade para tal, à pessoa que abriu a possibilidade para a crónica de uma transferência nunca concretizada. Falei nesta história à irmã, Elma Aveiro, e a uma sua prima, quando ambas trabalhavam na Reprografia da Universidade da Madeira, para onde fui estudar em 2002/03. Quando ia tirar fotocópias de apontamentos e livros, Ronaldo era tema de conversa obrigatório, e era por elas, que eu ficava a saber as novidades do rapaz que saiu criança da Madeira, cresceu em Alvalade, e espantava o Mundo a partir de Manchester.

MEMÓRIAS DE UM HOMEM RECTO É DE GARGALHADA FÁCIL CHAMADO DINIZ

Quanto a Diniz Aveiro, que esteve à margem desta história, encontrei-o pela última vez, uns dois anos antes de falecer, num autocarro da “Horários do Funchal”. Naquela viagem de 15 minutos entre o Funchal e Santo António, o pai de Ronaldo contou-me da sua enorme felicidade e relembro aqui de memória ainda muito viva: o filho era um jogador de “créditos firmados” (Ronaldo brilhava intensamente no Sporting) confessou-me que gostava de tê-lo visto no Benfica, mas no Sporting também “não estava mau” (Diniz Aveiro era benfiquista de coração), o “meu catraio” como repetidamente insistia em chamar ao filho, tinha-lhe emprestado trezentos contos, e estava a pagar o empréstimo com dez contos por mês. Tinha recusado ir morar para a casa que Ronaldo possuía no Livramento, preferia manter-se onde estava porque estava muito bem. Lembrou que o nome do filho surgiu em homenagem a Ronald Reagan, e era a imagem de felicidade de um homem bom, simples, que de manhã varria o passeio junto ao Pingo Doce em Santo António (a minha filha mais velha dizia-me do banco de trás do carro que estava ali aquele senhor "teu amigo"), e que soltava fortes gargalhadas ao final da tarde...
A vida é por vezes muito injusta e cruel, Dinis Aveiro merecia estar a ver o futuro que sempre antecipou ao filho.
Trazer esta história a público, esperando que ninguém fique ressentido com aquilo que aqui se divulga, é a minha homenagem ao extraordinário jogador, um exemplo de capacidade a todos os níveis, perfeccionista, trabalhador incansável, persistente, que ama o futebol e a quem o futebol deu tudo o que ele sempre procurou, muito bom rapaz, um bom chefe de família, homem de valores e princípios forjados na sua humilde educação. Para a história fica a “estória” duma transferência nunca concretizada … mas isso já são outras histórias.


Partilhar nas redes sociais
  • 132
  •  
  •  
  •  
    132
    Shares